Artes visuais,

linguagem gráfica

e estilo

Uma introdução

Desde o princípio deste texto, a palavra "linguagem" deverá pressupor que se está falando de alguma coisa que foi criada por alguém, quer dizer, alguma coisa que não foi "encontrada pronta" na natureza - como se encontram as nuvens, as pedras e outros elementos de uma paisagem. 

Além dessas coisas que acabamos de mencionar, encontramos uma enorme variedade de outras coisas "prontas" na natureza, tais como, por exemplo, sons, odores, sabores, texturas, cores, etc.

Todos essas coisas podem ser usadas para se constituir uma linguagem, mas para isso é necessário que elas sejam selecionadas, nomeadas e a elas se atribuam significados deliberados.

Vejamos, por exemplo, a seguinte frase:

- Caminhe em direção ao sul até encontrar uma pedra grande e arredondada.

Para informar alguém a respeito da localização de um lugar específico no espaço, a tal "pedra grande e arredondada", que foi "encontrada pronta" numa paisagem, foi selecionada, entre tantos outros elementos da paisagem, e foi nomeada, ou seja, foi citada na mensagem, e a ela se atribuiu o significado de "um ponto de referência espacial específico em uma paisagem" que, ao fim e ao cabo, é múltipla e infinita.

 

Considerado o processo de seleção, de nomeação e de atribuição de significado, podemos compreender aquilo que se quis dizer quando se disse que as linguagens são sempre criadas por alguém, o que equivale a dizer que as linguagens são sempre artificiais.

No contexto de uma linguagem, aquelas "coisas" que forem "escolhidas e nomeadas", para serem usadas como elementos constitutivos de uma mensagem, serão chamadas de "signos" ou "marcas".
 

No contexto de uma linguagem "espacial", por assim dizer, e na frase apresentada como exemplo, a expressão "pedra grande e arredondada" constituirá "signo linguístico", ou "marca linguística".

 

Em resumo, um signo linguístico é alguma coisa que serve como veículo para se compartilhar um significado.

Para quem trabalha na cozinha, cheiro de queimado pode significar que algo está exposto ao fogo há tempo demais. Para alguém que trabalha no campo, nuvens escuras no horizonte, podem significar que aí vem chuva.

Resumindo: uma pedra grande e arredondada que se destaca numa paisagem não é nada além de um elemento da paisagem. Mas ela pode ser selecionada dentre tantos outros elementos e nomeada, para ser usada como portadora de significado, se alguém quiser, por exemplo, usá-la para registrar ou informar uma localização específica.

Claro que a eficiência informacional desse "signo portador de significado" será sempre questionável: será ele suficiente para, sozinho, "carregar" toda a complexidade da mensagem que se pretende comunicar?


No caso específico da frase que estamos analisando, os termos "grande" e "arredondada" são potencialmente ambíguos, no sentido de que podem ser distintos os significados que a eles atribuem o emissor da mensagem, por um lado, e, por outro, o seu intérprete.

 

Uma criança pequena e um adulto halterofilista têm, quase certamente, diferentes noções de grandeza e, provavelmente, também de "rotundidade".


Por isso, para reduzir as potenciais ambiguidades da mensagem e as potenciais interpretações equivocadas, as pessoas que emitem mensagens se valem - outra vez deliberadamente - do acréscimo de novos elementos que, postos em relação uns com os outros, e ampliando a complexidade da mensagem, reduzem as ambiguidades.


- Caminhe em direção ao sul até encontrar uma pedra grande e arredondada, muito áspera ao toque, que está em frente a uma macieira, no centro de uma clareira coberta de grama.


Desse exemplo, já podemos deduzir o quanto a complexidade das relações entre os elementos de uma linguagem podem reduzir as ambiguidades e, mais ou menos proporcionalmente, diminuir a quantidade das possíveis interpretações equivocadas.


Tecnicamente falando, chamaremos de "repertório" ao conjunto dos signos expressivos de uma determinada linguagem.


No caso da linguagem gráfica, em particular, seu repertório expressivo é, desde há muito tempo, conhecido e usado pelos seres humanos para registrar e transmitir informações visuais.


Os elementos mais simples desse repertório gráfico são o ponto, o traço, a linha, a mancha e a cor.

Todos eles podem ser vistos na imagem abaixo.

Bisonte  policrômico, caverna de Altamira, Espanha, datação incerta.

Mas não é por serem antigos que esses signos deixam de ser contemporâneos.  Na verdade, podemos dizer que, por terem sido usados ininterruptamente ao longo da história humana, sempre foram, são e serão indefinidamente contemporâneos.
Como prova dessa afirmação, vejam-se as imagens seguintes.

Vincent van Gogh (1853 - 1890), desenho. Observe-se como, usando apenas dois signos do nosso repertório gráfico, pontos e traços, o artista conseguiu expressar uma mensagem visual perfeitamente compreensível.

Vincent van Gogh (1853 - 1890), desenho. Observe-se como, empregando os mesmos dois signos usados no desenho anterior, o ponto e o traço, o artista conseguiu expressar uma mensagem visual igualmente compreensível, mas completamente diferente.

Vincent van Gogh (1853 - 1890), pintura. Na imagem abaixo, observe-se que os mesmos signos gráficos, pontos e traços, são também utilizados na pintura. 

Vincent van Gogh (1853 - 1890), pintura, detalhe. Vale a pena olhar mais de perto!

Que tal darmos um passeio pela história da arte para conferirmos o uso e a permanência dos signos gráficos ao longo do tempo? Vale destacar que com esta seleção, mais ou menos aleatória, não pretendemos cobrir todas as épocas e estilos. 

Pintura funerária grega, datação incerta (de 300 A.C a 300 D.C.), detalhe.

Mestre de Taüll, afresco, Catalunha, Espanha, por volta de 1123, detalhe.

Mestre de Taüll, afresco, Catalunha, Espanha, por volta de 1123, detalhe.

Gerard Horenbout (1465 - 1541), pintura, detalhe.

Gerard Horenbout (1465 - 1541), pintura, detalhe.

Albrecht Dürer (1471 - 1525), gravura, detalhe.

Albrecht Dürer (1471 - 1525), pintura, detalhe.

Albrecht Dürer (1471 - 1525), pintura, detalhe.

Albrecht Dürer (1471 - 1525), pintura, detalhe.

Albrecht Dürer (1471 - 1525), pintura, detalhe.

Pieter Bruegel (1525 - 1530), desenho, detalhe.

Pieter Bruegel (1525 - 1530), pintura, detalhe.

Pieter Bruegel (1525 - 1530), pintura, detalhe.

Pieter Bruegel (1525 - 1530), pintura, detalhe.

George de la Tour (1593 - 1652), pintura, detalhe.

George de La Tour (1593 - 1652), pintura, detalhe.

Antoon  van Dyck (1599 - 1641), desenho, detalhe.

Antoon  van Dyck (1599 - 1641), pintura, detalhe.

Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), desenho, detalhe.

Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), pintura, detalhe.

Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), pintura, detalhe.

Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), pintura, detalhe.

Charles Dana Gibson (1867 - 1944), desenho, detalhe.

Sotero Cosme (1905 - 1978), gravura, detalhe.

Sergio Toppi (1932 - 2012), desenho, detalhe.

Jean Giraud (1938 - 2012), desenho, detalhe.

Do ponto de vista da aparência que uma obra de arte tem, ou seja, do ponto de vista estético da obra, o estilo é um dos resultados do uso particular que cada artista faz do repertório limitado dos signos que a linguagem gráfica preservou ao longo do tempo.


Em outras palavras, e para concluir esta breve introdução, aquilo que diferencia e particulariza o estilo pessoal de cada artista, resulta das diferentes, infinitas e imprevisíveis combinações de signos linguísticos que se consegue produzir.

Esses temas serão desenvolvidos no nosso próximo tópico, Linguagem gráfica e informação visual, a ser publicado em breve. Aguarde!

Linguagem gráfica

e informação visual

Uma atividade prática

Nesta atividade, trabalharemos as três primeiras etapas de um processo criativo relativamente "simples" (que terá, ao final, oito etapas). 


Neste caso, trata-se de um problema criativo duplo, como está descrito abaixo.


etapa 1. definição do problema:


a. representar, com pincel e aquarela, a forma exterior de alguns objetos; e 


b. produzir uma composição, distribuindo essas formas em uma superfície (que pode ser, preferencialmente uma folha de formato A3).

Antes de começar a pintar, vamos estudar soluções para este duplo problema produzidas por outros artistas.


etapa 2. estudo de casos (analisar algumas "soluções" para o problema acima definido) - seguem três imagens para serem estudadas:

 
a. a imagem abaixo apresenta "objetos" representados, com pincel e aquarela, pela sua forma exterior; 

 

a. Representação de objetos pela forma exterior.

b. a segunda e a terceira imagens exemplificam duas possibilidades de "arranjo" (ou de "composição") de "formas simples distribuídas sobre uma superfície" (atenção: as imagens a seguir exemplificam apenas o problema da composição, não servindo como exemplo para a solução da primeira parte do problema - representar apenas a forma dos objetos).

b. Composição.

etapa 3. exploração do problema (ou geração de repertório): chamamos esta etapa de "exploratória" porque não esperamos na primeira pincelada produzir uma "obra de arte". O que se espera é "entender" o que está implicado no problema. Isso significa dizer que, nesta etapa, vamos "rascunhar" e "descobrir possibilidades". Em outras palavras, pretende-se que, nesta etapa, possamos vislumbrar (ainda que "acidentalmente") a probabilidade de que existam, para os problemas apresentados, soluções diferentes das que foram estudadas acima.


Vamos começar?


Seguem algumas imagens a serem pintadas como formas simples!