AVISO:

Este site foi projetado para ser acessado

por celular! Obrigado pela visita,

mas no computador não é tão legal!

A Fortuna e o Escritor de Fábulas

 

Um Escritor de Fábulas atravessava uma floresta solitária quando se encontrou com a Fortuna.

 

Terrivelmente assustado, tentou subir numa árvore, mas a Fortuna puxou-o para baixo e se insinuou com uma persistência cruel.
 

Quando a resistência dele cessou e seus gritos se calaram, a Fortuna falou:
 

 - Por que tentaste escapar? Por que me olhas com tanta repulsa?
 

- Não sei o que és! – respondeu o Escritor de Fábulas, profundamente perturbado.
 

- Eu sou a riqueza, eu sou a respeitabilidade - explicou a Fortuna. - Sou casas luxuosas, iates e camisa limpa todos os dias. Eu sou o ócio, sou viagens, vinho, chapéus brilhantes e casacos que não brilham. Eu sou comida sobrando.
 

- Tudo bem! – disse o Escritor de Fábulas, sussurrando. - Mas, pelo amor de Deus, fale mais baixo.
 

- Mas por quê? – perguntou surpresa a Fortuna.
 

- Para eu não acordar! – respondeu o Escritor de Fábulas, enquanto uma calma sagrada se espalhava por seu belo rosto.

#

O encontro de um Princípio Moral com um Interesse Material

Um Princípio Moral encontrou-se com um Interesse Material no meio de uma ponte larga o suficiente para apenas um dos dois atravessar de cada vez.
 

O Princípio Moral trovejou:
 

– Abaixa-te, ser desprezível, e deixa-me passar sobre ti!
 

O Interesse Material apenas olhou nos olhos do outro sem dizer nada.
 

Vacilando, o Princípio Moral disse:
 

– Bom..., tiremos a sorte para ver quem deve se afastar até que o outro tenha atravessado.
 

O Interesse Material manteve um silêncio inquebrantável e um olhar imperturbável.
 

Com alguma dificuldade, o Princípio Moral retomou:
 

– A fim de evitar um conflito, eu mesmo vou me abaixar e permitirei que tu passes sobre mim.
 

Então, recuperando a fala, que por uma estranha coincidência era a sua mesma de sempre, o Interesse Material replicou:
 

– Não creio que tu serias um bom pavimento para mim - sou um tanto exigente com as coisas sobre as quais eu piso. Suponhamos que tu te atires na água.
 

E foi isso que aconteceu.

#

Uma questão de método

Um Filósofo, ao ver um Tolo batendo em seu Burro, disse:

- Não faça isso, meu filho, eu te peço! Violência gera violência!

 

- Isso - disse o Tolo, redobrando os golpes sobre o animal - é exatamente o que estou tentando ensinar a este animal que me deu uma patada.

 

Enquanto se afastava, o Filósofo disse para si mesmo:

 

- Sem dúvida, a sabedoria dos tolos não é nem mais profunda nem mais verdadeira que a dos filósofos, mas eles certamente têm um modo mais convincente de compartilhá-la.

#

O Gato e o Rei

 

Um Gato observava um Rei, em conformidade com o que lhe permitia a sabedoria popular.
 

- Então – disse o monarca, notando a inspeção da real pessoa que o felino fazia –, como me vês?
 

- Posso imaginar um Rei - disse o Gato -, a quem eu apreciaria mais.
 

- Quem, por exemplo?
 

- O Rei dos Ratos.
 

O soberano ficou tão encantado com aquela espirituosa resposta que concedeu ao Gato uma permissão para arrancar os olhos do Primeiro Ministro.

#

A Cigarra e a Formiga

 

Num dia de inverno, uma Cigarra Faminta suplicou a uma Formiga por um pouco da comida estocada no formigueiro.
 

- Por que não estocaste comida para ti, ao invés de cantar durante todo o verão? – perguntou a Formiga.
 

- Eu estoquei - disse a Cigarra -, eu estoquei! Mas as tuas colegas invadiram meu depósito e levaram tudo embora.

#

Inteiramente Cão

 

Um Leão ao enxergar um Poodle caiu na gargalhada diante de um tão ridículo espetáculo.
 

- Quem alguma vez terá visto um animal tão diminuto?
 

- É a mais pura verdade dizer que eu sou pequeno - replicou o Poodle, com austera dignidade -, mas, senhor, eu lhe peço que, em respeito à minha inteligência, observe que sou cachorro de cabo a rabo.

#

Nota biográfica
Ambrose Bierce (1842-?) foi um dedicado e mordaz crítico dos costumes sociais de sua época, distinguindo-se por ser sarcástico, incorruptível e descrente de convenções e de religiões. Declarou, certa vez, que sua independência era seu patrimônio e que escrevia para agradar ninguém mais além de si mesmo.
Bierce, em sua passagem pelo mundo dos vivos, deixou atrás de si um rastro de mistério. O ponto de interrogação que, mais acima, ocupa o espaço que caberia ao ano de sua morte é um sinal que encerra simbolicamente uma existência verdadeiramente lendária. Apesar de sua produção jornalística e literária gozarem de estimulante reputação, o fato é que, atualmente, muito pouco de sua obra está disponível para os leitores brasileiros. Até onde nossas investigações nos permitiram chegar, não encontramos nenhuma edição em português brasileiro destas suas fábulas fantásticas.