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Marion esteve feliz a tarde toda, perambulando entre uma e outra peça de seu pequeno apartamento. No quarto das crianças, ajudou a babá a lhes dar de comer com colheradas generosas. Leu durante algum tempo aconchegada no sofá novo - a coisa mais extravagante que tinham comprado em cinco anos de casamento.
 

Quando ouviu os passos de Michael na salinha de entrada, girou a cabeça e prestou atenção – ela gostava de ouvi-lo caminhar, sempre cuidadoso como se houvessem crianças dormindo por perto.
 

- Michael.
 

- Ah! – ele entrou na sala. - Oi!
 

Era um homem magro, alto e forte, de trinta anos, com uma testa comprida e gentis olhos pretos.
 

– Tenho novidades para você – ele disse. – Charley Hart vai se casar!
 

- Não!
 

Ele confirmou com a cabeça.
 

- Com quem?
 

- Com uma garota nossa conterrânea – respondeu pensativo. - Chegarão amanhã a Nova Iorque, e acho que deveríamos fazer alguma coisa para eles enquanto estiverem aqui. Charley é provavelmente meu amigo mais antigo.
 

- Um jantar talvez...
 

- Não sei... gostaria de fazer algo interessante – ele a interrompeu. - Ir ao teatro, quem sabe – hesitou. - Seria um gesto mais simpático, não acha?
 

- Tudo bem – concordou Marion. - Mas não devemos gastar demais. E não acho que seja nossa obrigação.
 

Ele olhou para ela surpreso.
 

- Quer dizer – ela continuou –, pouco temos visto Charley ultimamente. Na verdade, não o vemos quase nunca.
 

- Bom, sabe como são as coisas em Nova Iorque – ele disse meio que se desculpando. - Charley anda tão ocupado quanto eu. Tornou-se bastante conhecido e provavelmente está sendo convidado para tudo.
 

Falavam sempre de Charley Hart como sendo o amigo mais antigo dos dois. Cinco anos atrás, quando Michael e Marion se casaram, os três chegaram juntos a Nova Iorque, vindos da mesma cidadezinha do interior.  Durante mais de um ano, viram-se quase todos os dias, e Charley não deixou de se interessar por nenhuma das brigas do casal, nem pela menor alteração em seus sonhos e esperanças. Quando chegava em momentos de dificuldade, nunca deixava de tornar as situações mais agradáveis e engraçadas.
 

Claro que a chegada das crianças os havia afastado de Charley, e já fazia alguns anos que não lhe telefonavam à meia-noite para informá-lo de que algum cano havia se partido, ou de que o teto estava caindo sobre suas cabeças. Mas foi um distanciamento tão gradual que Michael ainda falava de Charley orgulhosamente como se o visse todos os dias.

Durante um tempo, Charley havia jantado com eles uma vez por mês e os três tinham muito sobre o que falar, mas esses encontros não terminavam mais com um “te ligo amanhã”. Ao invés disso, o que se dizia era "você tem que vir mais vezes jantar aqui", ou, depois de três ou quatro anos, "a gente se vê".
 

- Acho que posso organizar uma festinha - disse Marion de repente olhando ao redor e imaginando. - Vocês chegaram a combinar uma data?
 

- No próximo fim de semana - disse Michael, seus olhos escuros vagueavam pelo chão. - Podemos retirar os tapetes ou algo assim.
 

- Não! Ela sacudiu a cabeça. - Daremos um jantar para oito pessoas, com todas as formalidades, e depois jogaremos cartas.
 

Ela já estava especulando sobre quem convidar. É claro que sendo Charley um artista, provavelmente se encontrava com gente interessante todos os dias.
 

- Poderíamos convidar os Willoughby - ela sugeriu meio em dúvida. - Ela é atriz, eu acho, e ele é roteirista de filmes.
 

- Acho que não é por aí - objetou Michael. - Ele certamente encontra pessoas desse tipo no almoço e no jantar todos os dias a ponto de já estar enjoado delas. Além disso, exceto os Willoughby, quem mais dessa classe nós conhecemos? Tive uma ideia melhor. Podemos reunir um grupo de velhos conterrâneos nossos que vivam por aqui. Todos devem estar acompanhando a carreira de Charley e provavelmente adorariam voltar a vê-lo. Eu gostaria que descobrissem como ele continua sendo o mesmo camarada, apesar de toda a fama.
 

Após algum debate, eles concordaram com esse plano e, em menos de uma hora, Marion já falava ao telefone com seu primeiro convidado:
 

- É para conhecermos a noiva do Charley Hart - ela explicou. - Charley Hart, o artista. Você sabe, um dos nossos amigos mais antigos.
 

Na medida em que avançavam os preparativos, o entusiamo dela crescia. Contratou uma ajudante para garantir que a recepção fosse impecável e convenceu uma florista das redondezas para vir pessoalmente ajudar na decoração. Todos os "velhos conterrâneos" aceitaram avidamente o convite e o número de convidados passou de dez.
 

- Sobre que vamos conversar, Michael? - ela inquiriu nervosamente na véspera da festa. - Já imaginou se tudo der errado e todos se aborrecem e vão embora?
 

Ele riu.
 

- Isso não vai acontecer. Você sabe, todos se conhecem...
 

O telefone sobre a mesa se pronunciou, e Michael atendeu.
 

- Alô! ... Ah! Oi, Charley!
 

Marion ficou dura na cadeira.
 

- É mesmo? Puxa, sinto muito. Muito mesmo. Espero que não seja nada sério.
 

- Ele não vem? - irrompeu Marion.
 

- Sshh! - Ele fez para ela, e para o telefone: - É uma pena, Charley. Não, não tem problema. Apenas lamentamos que você esteja doente.
Com um gesto desanimado Michael soltou o telefone.

 

- A noiva dele voltou para casa à noite passada, e ele está de cama, doente.
 

- Quer dizer que ele não vem?
 

- Ele não vem.
 

O rosto de Marion se contraiu instantaneamente e seus olhos se encheram de lágrimas.
 

- Disse que o médico esteve com ele o dia inteiro - explicou Michael desconsolado. - Está com febre e nem mesmo queriam deixá-lo falar ao telefone.
 

- Não me interessa - disse Marion chorosa. - É horrível. Convidamos toda essa gente por causa dele.
 

- As pessoas não podem evitar cair doentes.
 

- Podem sim! - ela resmungou incoerente. - Elas podem fazer alguma coisa para evitar. E se a noivazinha dele partiu ontem à noite, por que ele não nos comunicou imediatamente?
 

- Ele disse que ela saiu sem avisar. Até ontem à tarde, era certo que os dois viriam.
 

- Acho que ele não se importa nem um pouco conosco. Aposto que ele ficou doente de propósito. Se ele se importasse, já há muito tempo a teria trazido para nos conhecer.
 

Ela se levantou bruscamente
 

- Quer saber - afirmou com veemência -, vou simplesmente ligar para todo mundo e contar tudo.
 

- Nossa, Marion...
 

Apesar daquele frouxo protesto dele, ela pegou o telefone e a agenda, e começou a procurar pelo primeiro número.
 

Depois disso, ela e Michael compraram ingressos para o teatro no dia seguinte, na esperança de preencher o vazio que o envolvimento com a festa deixaria. Quando, no final da tarde do dia seguinte, a florista, que não tinha sido avisada, chegou com caixas cheias de arranjos florais, Marion caiu em prantos e sentiu que tinha que sair de casa imediatamente para fugir dos fantasmas dos convidados ausentes. Antes, e em silêncio, comeram um elaborado jantar preparado com todas as coisas que tinham comprado para a festa.


- São recém oito horas - Michael falou depois de terminarem. - Talvez pudéssemos dar uma passada rápida para ver como está o Charley, não acha?
 

- Claro que não! - respondeu Marion, surpresa. - Jamais teria pensado nisso.
 

- Por que não? Se ele estiver muito doente, eu gostaria de saber se está sendo bem cuidado.
 

Percebendo que ele já tinha se decidido, ela controlou sua rejeição àquela ideia. Foram de táxi até o alto edifício de apartamentos na avenida Madison.
 

- Entre sozinho - disse Marion, nervosa. - É melhor eu esperar aqui.
 

- Por favor, venha comigo.
 

- Por quê? Ele está de cama, não vai querer mulheres em volta.
 

- Ele vai gostar de te ver, vai se animar. E vai saber que entendemos o que aconteceu com ele. Parecia bem deprimido ao telefone.
Michael a fez descer do táxi.

 

- Ficaremos apenas um minuto, certo? - ela murmurou, tensa, enquanto subiam no elevador. - A peça inicia às oito e meia.
 

- É o apartamento da direita - disse o ascensorista.
 

Tocaram a campainha e esperaram. A porta se abriu e foram levados direto para o amplo ateliê de Charley... que estava cheio de gente.

 

De uma ponta a outra do ateliê, estendia-se uma comprida mesa de jantar, iluminada por abajures e decorada com samambaias e rosas frescas. O ar, levemente enfumaçado, estava tomado por um alegre burburinho, risadas e conversa. Sentadas em fila a um dos lados da mesa, vinte mulheres, elegantemente vestidas, tagarelavam, por entre as flores, com vinte homens enfileirados do outro lado, todos possuídos por uma alegria provocada pelo faiscante vinho da Borgonha, que escorria de numerosas garrafas para dentro de finas taças geladas. No alto de um estreito mezzanino que rodeava a sala, enchendo o ar com um licor sonoro, um quarteto de cordas tocava alguma música de Stravinsky, afinada um tom abaixo do vozerio das mulheres.


A porta tinha sido aberta por um dos garçons, que deu um passo atrás em deferência aos dois que ele imaginou serem convidados retardatários. Imediatamente o homem encantador que estava à cabeceira da mesa levantou-se, guardanapo na mão, olhando paralisado para os recém chegados. A conversação reduziu-se a um meio silêncio, e todos os olhos seguiram os de Charley Hart em direção ao casal à porta. Então, como se um feitiço se tivesse quebrado, a conversação foi retomada, ganhando mais força a cada palavra - o momento de indecisão já tinha passado.
 

- Vamos embora!
 

O sussurro assustado de Marion chegou a Michael vindo de um vácuo, e por um minuto ele pensou que estivesse mergulhado em uma ilusão, e que não houvesse ninguém mais na sala a não ser Charley. Então os olhos de Michael clarearam e ele viu toda a gente que estava ali - ele nunca tinha estado em uma festa com tanta gente! Em meio ao tumulto de um grande naipe de metais, a música cresceu de repente, e pareceu que o sopro do sax alto ventava contra eles. Sem se virar, Michael e Marion deram alguns passos às cegas para trás em direção à antessala, fechando a porta ao deixarem o ateliê.
 

- Marion, eu...
 

Ela correu em direção ao elevador e apertou com força um dedo contra o botão que fez uma campainha soar tão alto quanto a última nota da música que ouviram lá dentro. A porta do apartamento se abriu de súbito e Charley saiu para o corredor.
 

- Michael! - ele gritou. - Michael, Marion, eu quero explicar! Entrem, eu imploro, eu quero explicar.
 

Ele falava ansiosamente, seu rosto estava vermelho e sua boca esboçava palavras que não se exteriorizavam.
 

- Depressa, Michael - veio a voz tensa de Marion da porta do elevador.
 

- Deixem-me explicar - gritou Charley freneticamente. - Eu preciso...
 

Michael se afastou dele, o elevador chegou e a porta se abriu ruidosamente.
 

- Vocês estão agindo como se eu tivesse cometido um crime - Charley seguia Michael pelo corredor. - Vocês não conseguem entender que esta situação não passa de um acidente?
 

- Está tudo bem - Michael murmurou. - Nós entendemos.
 

- Não, não entendem - a voz de Charley subiu com exasperação, dirigindo contra eles uma raiva que pretendia justificar sua própria e inaceitável posição. - Vocês estão indo embora indignados e eu estou pedindo para entrarem e se juntarem à festa. Por que vieram até aqui se não vão ficar? Vocês...?
 

Michael entrou no elevador.
 

- Para baixo, por favor! - gritou Marion. - Eu quero descer, por favor!
 

As portas barulhentas se fecharam.
 

Pediram ao motorista do taxi que os levasse de volta para casa - nenhum dos dois poderia ter encarado o teatro. No interior do automóvel, Michael escondeu o rosto nas mãos e tentou assimilar que aquela amizade que significava tanto para ele tinha acabado. Agora, era capaz de reconhecer que já tinha acabado fazia tempo, e que nem uma única vez sequer, durante todo o ano passado, Charley buscara a companhia dele - e o choque da constatação foi muito pior do que a afronta que lhes tinha sido feita.
 

Chegando ao apartamento, Marion, que não tinha dito nada durante todo o percurso, abriu caminho até a sala, onde fez seu marido se sentar.


- Vou te contar uma coisa que você tem que saber - ela disse. - Se não fosse pelo que aconteceu esta noite, eu provavelmente nunca te contaria, mas agora acho que você tem que ouvir a história toda. - Ela hesitou. - Em primeiro lugar, Charley Hart nunca foi seu amigo.
 

- Quê? - ele olhou para ela com seriedade.
 

- Ele nunca foi seu amigo - ela repetiu. - Não em todos estes anos. Ele era meu amigo.
 

- Quê? Charley Hart era...
 

- Eu sei o que você vai dizer, que Charley Hart era nosso amigo. Mas não é verdade. Não sei o que você representou para ele no início, mas ele deixou de ser seu amigo há uns três ou quatro anos.
 

- Quê? - os olhos de Michael arregalaram-se de espanto. - Se isso fosse verdade, por que ele estava com a gente o tempo todo?
 

- Por minha causa - disse Marion com firmeza. - Ele estava apaixonado por mim.
 

- Quê? - Michael riu incrédulo. - Você está imaginando coisas. Eu sei que, às vezes, de brincadeira, ele fazia de conta que...
 

- Não era brincadeira - ela o interrompeu -, no fundo, não era. Começou sendo, mas terminou com ele me pedindo para fugirmos juntos.
 

Michael franziu o cenho.
 

- Continue - ele disse tranquilamente. - Suponho que seja verdade, ou você não estaria me contando, mas não me parece real. Ele, simplesmente, de repente, começou a... a...
 

Ele fechou a boca, incapaz de dizer as palavras.
 

- Sim. Foi numa noite em que estávamos dançando - Marion hesitou. - E, no começo, eu até gostei. Ele era capaz de reparar em coisas como vestidos e chapéus, e em algum jeito diferente de eu me pentear. Era uma companhia agradável. Conseguia sempre fazer eu me sentir especial e, de vez em quando, até atraente. Não pense que eu preferia a companhia dele à sua - eu não preferia. Eu percebia o quão egoísta ele era, sabia que era tudo fogo de palha. Mas eu o encorajava, eu acho - pensava que estava tudo bem. Era uma outra forma de ver o Charley, e ele parecia estar se divertindo com aquela brincadeira, do mesmo jeito que se diverte com tudo o que faz.
 

- Sim - concordou Michael com esforço -, devia estar se divertindo a valer.
 

- No começo ele também gostava de você. Não acreditava estar te traindo de alguma forma. Estava apenas seguindo um impulso natural, só isso. Porém, depois de algumas semanas, ele começou a achar que você estava atrapalhando. Queria me levar para jantar sem você estar junto - e quase aconteceu. Bom, essas coisas continuaram por mais de um ano.
 

- E depois? Que foi que aconteceu?
 

- Nada aconteceu. Foi por isso que ele parou de nos visitar.
 

Michael ergueu-se vagarosamente.

 

- Então, quer dizer que...
 

- Espere aí! Se você pensar um pouco, verá que não poderia ter sido de outro jeito. Quando percebeu que eu estava tentando fazer com que ele voltasse a ser apenas mais um dos nossos amigos, ele caiu fora. Ele não queria ser apenas mais um de nossos amigos - foi assim que tudo terminou.
 

- Entendo.
 

Marion também se  levantou e começou a morder o lábio nervosamente.
 

- Bom, isso é tudo. Pensei que se você soubesse da coisa toda, isso que aconteceu hoje à noite te machucaria menos.
 

- Sim - Michael disse secamente -, acho que sim.
 

Nos meses seguintes, os negócios de Micahel prosperaram e, quando o verão chegou, eles foram para o interior, alugaram uma velha casa de uma pequena fazenda onde as crianças brincavam o dia todo nos densos bosques de grama e árvores. O "assunto Charley" nunca mais voltou a ser mencionado entre eles e, na medida em que os meses foram se sucedendo, acabou sendo relegado às sombrias profundezas de suas mentes. Às vezes, naqueles instantes antes de cair no sono, Michael se surpreendia pensando nos tempos felizes em que os três tinham passado juntos, apenas cinco anos antes - até que a realidade se sobrepunha à ilusão e ele rejeitava o assunto a ponto de quase sentir um malestar físico.
 

No fim de uma tarde quente de Julho, ele cochilava na varanda ao por do sol. O dia no escritório tinha sido difícil e era um prazer poder descansar ali enquanto a luz diurna se apagava sobre a terra.
 

O ruído inesperado de um automóvel fez com que erguesse preguiçosamente a cabeça. No fim da estradinha que passava bem em frente à casa, um táxi local tinha parado, e um jovem havia desembarcado. Com uma exclamação, Michael sentou-se. Mesmo à luz difusa do entardecer, ele reconheceu aqueles ombros, aquele jeito impaciente de caminhar...
 

- Maldito seja - ele murmurou.
 

Enquanto Charley subia pelo caminho pedregoso, Michael percebeu de relance que ele estava escabelado de um jeito diferente. Seu belo rosto estava vincado e cansado, suas roupas estavam amarrotadas e ele tinha a inconfundível aparência de alguém que precisa de uma boa noite de sono.
 

Charley subiu a escadinha que conduzia à varanda, olhou para Michael e sorriu abatido, de um jeito envergonhado.
 

- Oi, Michael.
 

Nenhum dos dois fez movimento algum no sentido de se apertarem as mãos, mas um segundo depois, Charley desabou abruptamente em uma cadeira.
 

- Preciso de um copo d'água - ele disse com voz rouca -, está quente como no inferno.
 

Sem uma palavra, Michael entrou na casa e voltou com um copo d'água que Charley bebeu em grandes e ruidosos goles.
 

- Obrigado - ele disse ofegante -, pensei que ia desmaiar.
 

Girou a cabeça fazendo de conta que eestava estudando o lugar.
 

- Belo lugarzinho vocês têm aqui - ele comentou. Seus olhos se voltaram para Michael. - Quer que eu vá embora?
 

- Nossa! Não! Descanse o quanto quiser. Está parecendo muito cansado.
 

- Estou. Quer ouvir sobre isso?
 

- Acho que não.
 

- Bom, vou contar mesmo assim - Charley disse em tom de desafio. - Afinal, foi para isso que eu vim. Estou encrencado, Michael, e não tenho ninguém a quem recorrer a não ser você.
 

- O que houve com seus amigos? - perguntou Michael com frieza.
 

- Já procurei todo mundo - fui atrás de todo mundo de quem me lembrei. Droga! - esfregou a testa com a mão. - Nunca pensei que fosse tão difícil arranjar dois mil dólares.
 

- Veio aqui para me pedir dois mil dólares?
 

- Espere aí, Michael. Espere até ouvir tudo. Você vai descobrir o quanto uma pessoa pode se envolver em confusão sem nem se dar conta. Você sabe que eu sou tesoureiro de uma associação de auxílio a artistas independentes - uma coisa para ajudar os principiantes. Havia um fundo, três mil e quinhentos dólares, esteve depositado na minha conta no banco por mais de um ano. Bom, você conhece meu padrão de vida - ganho muito e gasto muito - e há um mês, mais ou menos, comecei a especular um pouco com um amigo meu...
 

- Não sei por que está me contando tudo isso - Michael interrompeu impaciente -, eu...
 

- Espere mais um minuto, por favor, já estou quase terminando. - Ele olhava Michael com olhos assustados. - De vez em quando, eu usava aquela grana sem nem mesmo lembrar que não era minha. Sempre tive muita grana. Até que, nesta semana - ele hesitou -, nesta semana houve um encontro na associação e me pediram para sacar o dinheiro. Bom, eu procurei dois caras para tentar um empréstimo e, mal lhes dei as costas, um deles me denunciou. Na noite passada houve um escândalo. Disseram-me que se não devolvesse os dois mil até hoje de manhã, eu iria para a cadeia - a voz dele levantou e ele olhou em volta acuado. - Existe um mandado contra mim agora mesmo, e se eu não conseguir o dinheiro, vou me matar, Michael. Eu juro por Deus que vou! Não vou para a prisão. Sou um artista, não um homem de negócios...


Esforçou-se para controlar a voz.
 

- Michael - ele sussurrou -, você é o meu amigo mais antigo. Não tenho mais ninguém no mundo a não ser você.
 

- Chegou um pouco atrasado - disse Michael com desconforto -, você não pensou em mim quando, quatro anos atrás, pediu para minha esposa fugir com você.
 

O rosto de Charley assumiu uma aparência de surpresa sincera.
 

- Está com raiva de mim por causa disso? - ele perguntou confuso. - Pensei que estivesse com raiva por que não fui àquela festa que organizaram para mim.
 

Michael não respondeu.
 

- Pensei que ela tivesse te contado isso há muito tempo - continuou Charley. - Não pude evitar de me apaixonar por ela. Estava sozinho e vocês tinham um ao outro. Sempre que estava com vocês, ouvia da sua boca o quão maravilhosa Marion era, até que, finalmente, eu... comecei a concordar com você. Como poderia não me apaixonar por ela quando, durante um ano e meio, era a única mulher decente que eu conhecia? - Charley olhou desafiadoramente para Michael. - Bom, você ficou com ela, não ficou? Não a levei comigo. Nem sequer cheguei a beijá-la. Você precisa mesmo continuar ruminando isso?
 

- Olhe aqui - Michael disse cortante -, apenas me diga por que eu deveria lhe emprestar esse dinheiro?
 

- Bom - Charley vacilou e riu sem vontade -, eu não sei o motivo exato. Só pensei que você poderia.
 

- Por que eu deveria?
 

- Do seu ponto de vista, por nenhuma razão, eu acho.
 

- Esse é o problema. Se eu lhe desse o dinheiro, seria por sentimentalismo e covardia. Eu estaria fazendo uma coisa que não quero fazer.
 

- Tudo bem - Charley sorriu desagradavelmente -, faz sentido. Pensando bem, não existe nenhum motivo para você me emprestar o dinheiro. Bom - ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco e inclinou a cabeça para trás como se quisesse mudar de assunto do mesmo jeito que se tira um chapéu -, não quero ir para a prisão, e talvez amanhã você esteja pensando de outro jeito.
 

- Não conte com isso.
 

- Ah, não quis dizer que voltaria a lhe pedir o dinheiro. Falo de algo... bem diferente.
 

Charley balançou a cabeça, virou-se apressado e desceu para o caminho pedregoso que serpenteava para dentro da escuridão. No ponto em que o caminho se encontrava com a estrada, Michael deixou de ouvir os passos de Charley, como se houvesse alguma hesitação. Então, ouviram-se os passos outra vez seguindo pela estrada no sentido da estação de trem, que ficava a um quilômetro e pouco de distância.
 

Com o rosto entre as mãos, Michael afundou na cadeira. Escutou Marion sair.
 

- Ouvi tudo - ela murmurou -, não pude evitar. Fico feliz que você não lhe tenha emprestado nada.
 

Aproximou-se e teria sentado no colo dele, mas uma espécie de repulsa quase física invadiu o corpo de Michael, que praticamente saltou da cadeira.
 

Marion continuou:
 

- Tive medo de que ele se aproveitasse do seu bom coração para obter o que desejava. - Ela hesitou. - Ele te odiava, sabe? Queria que você morresse. Eu disse a ele que se me falasse disso outra vez, eu nunca mais voltaria a vê-lo.
Michael olhou para ela com desagrado.

 

- De fato, foi uma atitude muito nobre.
 

- Quê?
 

- Deixou que tentasse te seduzir, e quando ele vem aqui, derrotado e mendigando, sem nem um amigo no mundo, você me diz que se sente feliz por eu tê-lo mandado embora.
 

- Porque eu te amo, Michael...
 

- Não, não é por isso! - Ele a interrompeu rudemente. - É porque o ódio é mercadoria barata neste mundo. Tudo mundo tem sobrando para vender. Meu Deus! Sabe o que estou pensando de mim neste momento?
 

- Seja o que for, ele não merece que você se preocupe.
 

- Por favor, quero ficar sozinho - Michael exclamou raivoso.
 

Ela o deixou a sós, e ele voltou a sentar-se na escuridão da varanda, uma sensação de desgraça se apoderava dele. Várias vezes sentiu vontade de se levantar, mas manteve-se sentado. Enfim, depois de um bom tempo, levantou-se de um salto, um suor frio descia por sua testa. Os últimos meses e a última hora desapareceram subitamente de seus pensamentos, e ele voltou muitos anos no tempo. Um tempo que Charley Hart, seu velho amigo, trouxera consigo para o presente. Charley Hart que o procurara porque não tinha outro lugar aonde ir. Michael correu pela varanda em busca de um chapéu e de um casaco.
 

- Ei, Charley! - gritou.
 

Finalmente, encontrou um casaco e, lutando com ele, desceu correndo os degraus. Era como se Charley tivesse partido há pucos minutos.
 

- Charley! - gritou outra vez quando alcançou a estrada. - Volte aqui, Charley! Foi tudo um engano!
 

Parou, tentando escutar. Não ouviu resposta. Teimoso e já um pouco ofegante, correu pela estrada para dentro da noite quente.
 

Eram recém oito e meia, mas o campo estava em total silêncio, apenas os sapos coachavam na faixa de banhado que costeava a estrada. O céu estava salpicado de estrelas meio apagadas e, dentro de pouco tempo, a lua apareceria. A estrada corria por entre árvores escuras e Michael mal podia enxergar dez passos a frente. Parou de correr e passou a andar. De tanto em tanto, olhava para os ponteiros luminosos do relógio de pulso - o trem para Nova Iorque não sairia antes de uma hora. Havia bastante tempo.
 

Apesar disso, inquieto, voltou a correr e, em quinze minutos, cobriu a distância que havia entre sua casa e a pequena estação, encolhida humildemente ao lado dos trilhos que reluziam na escuridão. Michael divisou as luzes de um único táxi esperando pelo próximo trem, ao lado da estação.
 

A plataforma estava deserta. Michael abriu a porta da sala de espera e perscrutou a penumbra. Não havia ninguém lá dentro.
 

- Que estranho - murmurou.
 

Despertou o motorista do táxi. Perguntou se ele tinha visto alguém esperando pelo trem. O motorista pensou um pouco. Sim, há cerca de vinte minutos, havia um jovem esperando, fumando e caminhando pela plataforma. Depois, sumiu.
 

- Que estranho - Michael repetiu.
 

Juntou as mãos junto à boca e, como se formassem um megafone, gritou na direção do bosque que ficava atrás da estação.
 

- Charley!
 

Não houve resposta. Gritou mais uma vez. Então, voltou até o táxi.
 

- Você tem alguma ideia de para onde ele poderia ter ido?
 

O homem apontou vagamente na direção da estrada que seguia para Nova Iorque e que corria ao lado dos trilhos.
 

- Acho que foi por ali.
 

Michael agradeceu e, cada vez mais inquieto, dirigiu-se às pressas para a estrada que, naquele momento, parecia branca sob a luz da lua nascente. Agora, ele tinha certeza total de que Charley estava disposto a se matar. Lembrou-se da expressão em seu rosto antes de ele descer para a estrada e da mão escondida no bolso como se estivesse segurando algum objeto ameaçador.
 

- Charley! - gritou com uma voz horrível.
 

As árvores escuras não lhe responderam. De volta à estrada, Michael passou por dúzias de campos que brilhavam como prata sob o luar e, de tanto em tanto, parava para gritar e esperar ansiosamente por alguma resposta.
Ocorreu-lhe que era bobagem continuar naquela direção, Charley provavelmente estaria em algum lugar perto do bosque nos arredores da estação. Ou talvez fosse tudo imaginação, talvez Charley estivesse agora mesmo dando voltas pela plataforma, esperando o trem. Mas algum impulso para além da lógica fazia Michael continuar. Mais do que isso, muitas vezes sentia como se alguém estivesse logo à sua frente, fora do alcance de sua vista e de sua voz, escapando-lhe a cada curva, deixando atrás de si um rastro tênue, porém trágico. Em certo momento, chegou a escutar passos entre as folhagens ao lado da estrada, mas era somente um pedaço de jornal soprado pela brisa quente.

 

A lua parecia lançar raios ferventes sobre a terra abrasada, naquela noite sufocante. Sem se deter, Michael tirou o casaco e segurou-o dobrado sob o braço. Um pouco mais a frente de onde estava, podia ver uma ponte de pedra que passava acima dos trilhos e, ainda mais adiante, uma interminável linha de postes telefônicos que se estendia e encolhia em direção ao horizonte. Decidiu que caminharia até a ponte e depois desistiria. Teria desistido antes, se não fosse por aquela sensação de que alguém, apenas um pouco além da sua vista, caminhava apressadamente.
 

Chegando à ponte de pedra, Michael sentou-se sobre a mureta, o coração batendo forte debaixo da camisa suada. Bom, não havia mais esperança. Charley já estava longe, talvez para sempre fora do alcance de qualquer ajuda. À distância, ouviu o apito do trem das nove e meia aproximando-se estação.
 

Subitamente, Michael perguntou-se por que estava à procura de Charley. Desprezou-se por estar ali. Em que corda sensível de seu caráter, Charley havia tocado naqueles poucos minuros na varanda, obrigando-o a correr pela noite, desesperado e sem saber explicar a razão? Tinham discutido e Charley tinha sido incapaz de apresentar um motivo que justificasse aquela busca enlouquecida.
 

Michael pôs-se de pé com a ideia de regressar, mas antes de se virar, permaneceu por um minuto sob o luar olhando para a estrada. Do outro lado dos trilhos, estavam os postes telefônicos e, enquanto seus olhos tentavam enxergar o mais longe possível naquela direção, ouviu outra vez, mas agora mais perto, a melodia do apito do trem de Nova Iorque subindo e descendo na imobilidade da noite. De repente, seus olhos, que haviam estado vagando ao longo dos trilhos, detiveram-se e se focaram num ponto da linha dos postes, a umas poucas centenas de metros de distância. Era um poste como todos os outros, mas, ainda assim, era diferente de um jeito difícil de explicar.

Esforçando-se para enxergar, com a concentração de quem examina as padronagens de um tapete, uma coisa curiosa aconteceu em sua mente de modo que, em instantes, foi capaz de contemplar tudo sob uma luz completamente distinta. Uma ideia lhe havia chegado à mente como o sopro de uma brisa, algo que transformou completamente sua comprensão de toda aquela história. Foi o seguinte: lembrou-se de ter lido  em algum lugar que, em em dado momento da idade das trevas, um homem chamado Gerbert havia sintetizado e encarnado toda a civilização europeia em si mesmo. Tornou-se, subitamente, claro para Michael que ele próprio tinha acabado de chegar a uma posição semelhante. Por um minuto, em um ponto preciso no tempo, toda a misericórdia do mundo tinha sido investida nele.
 

No espaço de um segundo, percebeu tudo isso com uma sensação de choque e, instantaneamente, entendeu a razão pela qual ele devia ter ajudado Charley. Era porque seria intolerável existir em um mundo onde não existisse compaixão, onde um ser humano pudesses estar tão sozinho quanto Charley havia estado naquela tarde.
 

Era óbvio que disso se tratava: a ele, Michael, tinha sido confiada uma oportunidade. Alguém que não tinha mais aonde ir tinha vindo até ele, e ele havia falhado.
 

Durante aquele breve instante, ele permaneceu de pé, completamente imóvel, observando o poste telefônico lá perto dos trilhos, aquele em que seus olhos tinham distinguido algo que o tornava diferente dos demais. A lua estava tão brilhante agora que ele podia ver uma barra branca atravessando o poste, perto da ponta e, enquanto ele olhava, o poste e a barra pareceram se isolar como se os demais postes tivessem se encolhido e sumido.
 

De súbito, a pouco mais de um quilômetro de distância, ouviu o estalo e o estrépito do trem elétrico que deixava a estação, e como se o som lhe tivesse devolvido à vida, Michael soltou um grito instintivo e pôs-se a correr desenfreadamente pela estrada, na direção do poste da barra atravessada.
 

O trem apitou outra vez. O clac-clac-clac produzido por seu deslocamento sobre os trilhos se aproximava cada vez mais - seiscentos metros, quinhentos metros -, e quando passou debaixo da ponte de pedra, Michael foi iluminado pelo feixe poderoso de seus faróis. A única emoção que ele sentiu foi terror. Sabia que tinha de chegar ao poste antes do trem, e o poste estava a uns cinquenta metros a frente, destacando-se como uma estrela contra o céu.
 

Entre a via férrea e os postes do outro lado dos trilhos não havia muito espaço, e agora que o trem estava tão perto, Michael decidiu não esperar mais porque, do contrário, não conseguiria atravessar a estrada de ferro antes do trem passar. Agilmente desviou-se da estrada, cruzou os trilhos com duas largas passadas e, com o som do motor elétrico zunindo em seus calcanhares, correu oito, nove metros sobre o chão de terra batida, e, enquanto o barulho do trem tornava-se um estrondo aos seus ouvidos, alcançou o poste e jogou-se sobre o homem que estava ali de pé, atirando-o ao solo sob o peso de seu corpo.
 

O guincho estridente das rodas metálicas deslizando sobre os trilhos de aço golpeou seus ouvidos, uma lufada de ar em movimento rugiu brevemente, e o trem das nove e meia já tinha passado.


- Charley - ele arquejou -, Charley.
 

O rosto pálido de Charley encarava-o confusamente. Michael rolou para o lado e se estendeu ofegante sobre o solo. A noite sufocante estava tranquila outra vez. Não havia outro som a não ser o murmúrio ruidoso do trem se afastando.
 

- Meu Deus!


Michael abriu os olhos e viu Charley sentado, com o rosto entre as mãos.
 

- Está tudo bem, Charley - Michael suspirou. - Está tudo bem, vou te emprestar o dinheiro. Não sei em que eu estava pensando, afinal. Você é um dos meus amigos mais antigos.
Charley balançava a cabeça.


- Eu não entendo - falou com voz entrecortada. - De onde você saiu? Como chegou aqui?
 

- Estava te seguindo, estava bem atrás de você.
 

- Já faz meia hora que estou aqui.
 

- Bom, é uma sorte você ter escolhido este poste para... para esperar. Quando cheguei à ponte, minha atenção foi atraída para cá por causa da barra atravessada.


Charley se havia posto de pé, afastara-se alguns passos e examinava o topo do poste iluminado pela lua.
 

- O que foi que você disse? - ele perguntou confuso um pouco depois. - Você disse que viu uma barra atravessada?


- Sim, por quê? Estive olhando para ela por bastante tempo. Foi por isso...
 

Charley olhou para cima outra vez e hesitou antes de falar.
 

- Não há nenhuma barra atravessada aqui - ele disse.

***

Este conto foi escrito por F. Scott Fitzgerald em março de 1924. Em setembro de 1925, foi publicado na revista Woman's Home Companion e incluído na coletânea Os melhores contos do mundo de 1926. Provavelmente foi distribuído e publicado em diversos jornais americanos, como era comum