"Grave-se na pupila dos homens, aventura estranha como a minha, tecida com tantos fatos surpreendentes!

Tornar-se-á motivo de reflexão para todos os que se comprazem em tirar lições das experiências de outrem."

Assim começam alguns dos contos mais famosos das Mil e Uma
Noites, pouco lidos pelas gerações que se criaram na frente da TV.
Entretanto, nas pupilas dessas gerações, foram e continuam a ser gravadas imagens que, uma e outra vez, retornam em adaptações ou em citações que volta e meia surgem na forma de filmes, desenhos animados e histórias em quadrinho.

Aventureiro que se preza tem que, ao menos de vez em quando, dar uma passadinha pelo Oriente. Qualquer aventurazinha insignificante que seja, ao encaminhar-se para oriente, mesmo que por caminhos inverossímeis, acaba por se ver enormemente enriquecida com porções inesgotáveis de mistério, paixão e perigos!

Fantasma, Batman, Elektra, Indiana Jones, Lara Croft, Tintim ... É interminável a lista de heróis que arriscaram suas peles transitando por remotas plagas orientais.

O fato é que o limitado conhecimento ocidental a respeito do Oriente faz deste um território livre para a imaginação. Seja a que for que se refira essa palavra "oriente", parece que lá, a existência de qualquer coisa é possível, desde conhecimentos secretos, riquezas insondáveis e poderes mágicos, até cidades perdidas, vilões demoníacos e figuras mitológicas. E, por ser o Oriente supostamente habitado por multidões de bárbaros e semibárbaros, ao herói ocidental qualquer atitude agressiva ou apaixonada estará naturalmente justificada.

No enredo de algumas histórias das mil e uma noites, a figura do gênio irrompe, de tempos em tempos, para socorrer ou para ameaçar os aventureiros, permitindo reviravoltas que seriam, de outra forma, inaceitáveis. Se alguns gênios são simpáticos e prestativos, talvez os malvados somem a maior quantidade, e suas aparições oportunizam adicionarem-se às tramas toques de bárbara violência.

Nesse sentido, embora o imaginário infanto-juvenil ocidental incorpore corriqueiramente personagens e contextos oriundos de variadas fontes, os contos das Mil e Uma Noites têm sido, ao longo tempo, talvez a principal influência, direta ou indireta, das aventuras orientalistas mais conhecidas. Entretanto, é bom que se diga que esses contos em sua formulação original talvez não sejam os mais indicados para botar nossas crianças para dormir.

A verdade é que inúmeras imagens de um Oriente bárbaro e violento saíram daquelas páginas de origem imprecisa: sultões que mandam cortar cabeças, gênios que não são necessariamente gentis ou generosos, mulheres sexualmente ativas e empoderadas, por assim dizer, abundam.

Aliás, nesse sentido, por lhes conceder uma liberdade de ir e vir que não se consegue facilmente em ambientes fundamentalistas, o véu acaba sendo de grande utilidade para as mulheres das mil e uma noites – sem falar no poder de sedução potencializado pela aura de mistério que os véus lhes emprestam.

Leitura obrigatória para jovens e adultos dentre esses contos também não faltam histórias de amor verdadeiro, de perdão, de caridade e de amizade. Sim, porque se Alá pode ser um Deus severo, ele sabe também ser misericordioso.