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O desejo de ser um índio
Se eu pudesse ser um índio, agora mesmo, sobre um cavalo a todo galope, com o corpo inclinado e suspenso no ar, estremecendo-me sobre o chão oscilante, até abandonar as esporas, pois não teria mais esporas, até soltar as rédeas, pois não teria mais rédeas, apenas comtemplando a paisagem que se parece com uma pradaria ceifada, pois já não teria mais o pescoço e a cabeça do cavalo à minha frente.

A recusa
Se encontro uma garota bonita e lhe peço:
- Seja boa, venha comigo -, e ela passa reto sem dizer uma palavra, essa atitude dela significa:
- Tu não és nenhum duque de nome altissonante; nem um americano atlético com estatura de índio, com olhos horizontais e contemplativos, não tiveste a pele acariciada pela brisa das pradarias, nem tocada pelo sopro dos rios que por lá fluem. Não viajaste aos Grandes Lagos - que eu nem ao menos sei onde se encontram -, nem os haverá singrado. Assim que, diz-me: por que uma garota bonita como eu haveria de ir-se contigo?
- Esqueces que ninguém te leva pelas ruas, sacudindo-te ao balanço do automóvel; não vejo irem atrás de ti os rapazes em séquito, comprimidos em seus trajes e murmurando-te galanteios. (Teus seios estão apertados pelo corpete, mas tuas coxas e cadeiras se isentam dessa sobriedade.) Usas um vestido de tafetá com pregas, como aquele que tanto nos alegrou no outono passado e, apesar de tudo, com todo esse perigo mortal em teu corpo, apenas de vez em quando se escuta alguma risada tua."
"Sim, sim, nós dois temos razão e, para não sermos conscientes disso de um modo irremediável, preferimos ir sozinhos para casa, não é?"

As árvores
Pois somos como troncos de árvore na neve. Aparentemente presos a um chão escorregadio, de forma que um pequeno empurrão poderia nos deslocar. Mas não, não poderia, pois estamos fortemente enraizados no chão. Apesar de que - olha bem! - até isso é mera aparência.

Vestidos
Com frequência, quando vejo vestidos com múltiplas pregas, babados e adornos, que tão lindamente brilham sobre corpos bonitos, não posso deixar de pensar em que não permanecerão assim por muito tempo. Pelo contrário, perderão sua lisura, acabarão amarfalhados e cobertos de tanto pó que será impossível limpá-los. E penso também que ninguém vai querer mostrar uma imagem tão triste e ridícula ao vestir todos os dias de manhã o mesmo traje dispendioso para tirá-lo à noite.
Entretanto, vejo garotas muito bonitas, que possuem músculos excitantes, ossos delicados, pele suave e cabelo fino, que, não obstante, cobrem diariamente seus corpos com esses disfarces e cobrem sempre o rosto com as próprias mãos, deixando-se refletir assim por seus espelhos.
À noite, quando voltam tarde de uma festa, esse traje, s
omente algumas vezes, lhes parece gasto, puído, empoeirado, usado demais e consideram-no indigno de voltar a ser visto.

O comerciante
É possível que alguns se compadeçam de mim, mas eu não percebo nada. Minha pequena loja me enche de preocupações, que me causam dores nas têmporas e na fronte, sem me dar a menor perspectíva de satisfação, pois, como já disse, minha loja é pequena.
Tenho que tomar decisões preventivas, manter acesa a memória dos empregados, identificar os erros de que tenho medo, e antecipar em uma estação a moda da temporada seguinte - não a moda que predominará entre as pessoas da minha classe, mas a da população de lugares inacessíveis.
Meu dinheiro está nas mãos de estranhos. Seus recursos não sei exatamente de onde vem e não consigo nem suspeitar das desgraças que podem se abater sobre essas pessoas. Como posso então defender meu dinheiro? Talvez essas pessoas tenham se tornado esbanjadoras e estejam dando festas nos jardins de algum hotel, enquanto outras já em meio a sua fuga para a América, pouco tempo se divertem na festa.
Quando fecho a loja à noite, ao fim de um dia de trabalho, de súbito, tenho diante de mim muitas horas em que não trabalharei para as intermináveis exigências do meu negócio.
Então, a antecipada agitação da manhã seguinte se atira sobre mim, como se fosse a alta de uma maré, mas que não suporta manter-se em meu interior e me arrebata sem objetivo algum.
Contudo, não posso usar esse estado de ânimo, apenas posso ir para casa, pois tenho as mãos e o rosto sujos e suados, a roupa cheia de manchas e de poeira, o boné do uniforme na cabeça e, nos pés, as botas esfoladas pelas quinas dos caixotes.
Caminho como se fosse sobre ondas, estalo  os dedos e acaricio o cabelo das crianças que vem ao meu encontro.
O caminho é circular, chego em minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Agora comprovo de repente que estou só. Os outros, que têm que subir as escadas, cansam-se um pouco, têm que esperar com a respiração acelerada que alguém lhes venha abrir a porta - têm aí um motivo para se irritar e para exibir uma atitude impaciente. Depois, entram na sala de estar, penduram o chapéu, e ao chegarem ao quarto, depois de atravessar o corredor, passando por algumas portas de vidro, é só então que se encontrarão sozinhos.
Eu, por outro lado, estou sozinho já no elevador e, apoiado no joelho, contemplo o espelho estreito. Quando o elevador começa a subir, digo a mim mesmo:
- Fica tranquilo, volta para a rua! Atrás das cortinas das janelas, desejarás descer à sombra das árvores,  ao topo das copas.
Falo entre dentes, e, pelo vidro do elevador, o corrimão da escada desliza para baixo como uma cascata.
- Voa para longe!
Que tuas asas, nunca vistas, te levem para o vale da tua aldeia, ou a Paris - se é para lá que desejas ir.
Desfruta, ao menos, da vista que te oferece a janela quando as procissões vem pelas três ruas de em frente, e não se evitam, apenas se misturam e deixam outra vez espaço vazio entre suas últimas fileiras. Acena com o lenço, horroriza-te, comove-te, louva a bela dama que passa sem se deter.
Vai até a ponte de madeira sobre o riacho, reverencia as crianças que se banham e se assustam com os gritos de milhares de marinheiros no encouraçado distante.
Segue o homem modesto e quando o tiveres encurralado contra a porta de um carro, rouba-o e, depois, observa com que tristeza ele continua seu caminho pela rua da esquerda, com as mãos nos bolsos.
A polícia dispersa, galopando sobre seus cavalos, retém os animais e os faz retroceder.
Deixa-os!
As ruas vazias os farão infelizes, eu sei. Olha, já cavalgam em duplas virando lentamente as esquinas e voando sobre as praças.
Enfim, tenho que sair do elevador, tocar a campainha, e a mulher abrirá a porta enquanto a cumprimento.

Caminho de casa
A forte convicção do ar - depois da tempestade - está aí para quem quiser ver!
Minhas responsabilidades aparecem e me dominam, mas não lhes ofereço resistência.
Caminho, e meu ritmo é o ritmo desta calçada e desta rua, deste bairro. Sou responsável, e com razão, por todas as batidas nas portas, nas tábuas das mesas, sou responsável por todos os brindes, por todos os casais em suas camas, pelas estrangeiras nos bordéis, pelos andaimes das novas construções apertados contra as paredes dos becos escuros.
Aprecio meu passado em detrimento do meu futuro.
Ainda que ache excelentes os dois, não posso dar primazia a nenhum. Só devo censurar a injustiça da providência que tanto me favorece.
Apenas depois de entrar no meu quarto me torno um pouco pensativo, ainda que, enquanto subisse as escadas, não houvesse encontrado nada que me parecesse digno de ser pensado. Não me ajuda nada abrir a janela e que continuem tocando música em algum jardim.