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O desleixado wub poderia muito bem haver dito: muitos homens falam como filósofos e vivem como idiotas! - Planet Stories_1952_07
Ilustração original: H. B. Vestal (1916-2007)
Eles já quase tinham terminado de carregar a nave. De pé, do lado de fora, de braços cruzados, Optus franzia o senho. Sorrindo, o capitão Franco desceu vagarosamente a rampa.
- Qual é o problema? - Franco perguntou a Optus. - Você está sendo pago.
Optus não disse nada. Virou-se e pegou seu traje. O capitão pisou em uma das pontas do traje.
- Um minuto. Ainda não é hora de ir. Ainda não terminei.
- Ah, não? 
Optus deu meia volta com dignidade e, olhando na direção dos animais que estavam sendo embarcados na nave, acrescentou:
- Estou voltando à aldeia. Devo organizar novas caçadas.
Franco acendeu um cigarro.
- Como não? Vocês só se importam com sair a campo e seguir pistas o tempo todo. Mas quando estamos na metade da nossa jornada entre Marte e a Terra... - interrompeu-se.
Optus se afastou sem dizer mais nada. Franco segurou o primeiro tripulante que encontrou na base da rampa.
- Como estão indo as coisas? - perguntou, olhando para o relógio. - Fizemos um bom negócio aqui.
O tripulante lhe dirigiu um olhar azedo.
- Como você justifica isso que fazemos?
- Ei, qual é o seu problema? Precisamos disso mais do que eles.
- Nos vemos mais tarde, capitão.
O tripulante se afastou abrindo caminho por entre as aves marcianas de pernas compridas. Franco observou-o desaparecer. Já ia começar a subir a rampa em direção à porta da nave quando viu a coisa.
- Meu Deus! - Ficou ali parado com as mãos na cintura. 
Com a cara vermelha, Peterson vinha pelo caminho, puxando a coisa por uma corda.
- Desculpa, capitão, - disse Peterson, segurando a corda. 
Franco caminhou em sua direção.
- O que é isso?
Com os olhos meio cerrados, a coisa deteve-se molemente, seu corpo volumoso se aprumando devagar. Sentou-se. Meia dúzia de moscas zumbiam ao redor do seu flanco, a coisa balançou o rabo em silêncio.
- É um wub - respondeu Peterson. - comprei de um nativo por uma ninharia. Dizem que é um animal muito raro e muito respeitado.
- Essa coisa? - Franco cutucou o enorme flanco do wub. - Parece um porco! Um grande porco imundo!
- Sim, senhor, é um porco, mas os nativos o chamam de wub.
- Um grande porco. Deve pesar uns duzentos quilos.
Franco agarrou um tufo do pelo áspero do bicho. O wub suspirou. Seus olhos se abriram, pequenos e úmidos. Sua grande boca se contraiu. Uma lágrima lhe rolou bochecha abaixo e espatifou-se no solo.
- Talvez seja bom de comer - Peterson disse nervosamente.
- Bem, logo descobriremos - Franco respondeu.

Profundamente adormecido no porão da nave, o wub sobreviveu à decolagem. Quando já estavam no espaço e tudo andava normalmente, o capitão Franco ordenou que seus homens trouxessem o wub para cima a fim de descobrirem que tipo de animal era aquele.
O wub grunhiu e chiou, espremendo-se pela passagem rumo ao andar superior.
- Vamos lá - resmungava Jones, puxando a corda. 
O wub se contorcia, esfregando a pele contra as lisas paredes cromadas. Irrompeu na antessala já caindo ao chão. Os homens se ergueram de um salto.
- Minha nossa, - exclamou French. - O que é isso?
- É um wub, - respondeu Jones dando um pontapé no animal, que, ofegante, levantou-se com dificuldade - é do Peterson.
- Ele está com algum problema? - French se aproximou. - Vai ficar doente?
Todos olhavam. O wub revirou os olhos tristes encarando os homens que o cercavam.
- Deve estar com sede - disse Peterson e saiu em busca de água balançando a cabeça.
- Não me admira que tenhamos tido tanta dificuldade em zarpar. Tive que refazer todos os cálculos por causa do peso extra.
Peterson voltou com a água. O wub, agradecido, a sorveu sofregamente respingando todos à sua volta.
O capitão se aproximou.
- Vamos dar uma boa olhada nisso - disse com olhar perscrutador. - Você pagou cinquenta centavos por isso?
- Sim senhor, - respondeu Peterson. - Ele come quase tudo. Dei-lhe cereais e ele gostou. Em seguida batatas, forragem, as sobras da nossa comida e leite. Parece que ele gosta de comer. Depois de comer, ele se deita e dorme.
- Sei - disse o capitão. - Pois eu gostaria de saber que sabor ele tem. Isso é o que importa. Acho melhor não engordá-lo demais. Já está bastante grande. Onde está o cozinheiro? Quero ele aqui agora! Vamos descobrir se...
O wub parou de beber e olhou para o capitão.
- Sabe, capitão, acho melhor mudarmos de assunto - disse o wub.
A sala ficou em silêncio.
- Que foi isso? - perguntou Franco.
- Foi o wub, senhor - Peterson respondeu. - Ele fala.
Todos olharam para o wub.
- Que foi que ele disse? Que foi que ele disse?
- Ele sugeriu que falássemos de outra coisa.
Franco deu a volta no wub, examinando-o por todos os lados. Em seguida, voltou para junto de seus homens.
- Acho que tem um nativo escondido aí dentro - falou pensativo. - Talvez devêssemos abri-lo ao meio para ter certeza.
- Nossa! - exclamou o wub. - É só nisso que você pensa, em matar e cortar?
Franco cerrou os punhos.
- Saia daí! Quem quer que seja, saia já daí!
Nada aconteceu. Os homens, comprimidos em um grupo coeso, com as caras empalidecidas, não tiravam os olhos do wub. O bicho balançou o rabo e arrotou.
- Peço desculpas. - disse o wub.
- Acho que não tem ninguém aí dentro - Jones falou com voz grave. Olharam-se uns aos outros.
O cozinheiro entrou.
- Mandou me chamar, capitão? O que é isso?
- É um wub - Franco respondeu. - É de comer. Tire suas medidas e ache um jeito de...
- Penso que deveríamos discutir isso com mais calma - disse o wub. - Eu gostaria de conversar em particular com o senhor, capitão, se fosse possível. Sinto que não temos as mesmas ideias a respeito de certas questões fundamentais.
O capitão demorou a responder. O wub esperou pacientemente, secando a água das mandíbulas.
- Venha ao meu escritório - disse o capitão por fim, já se dirigindo para fora da sala.
O wub se levantou e o seguiu. Os homens acompanhavam tudo com o olhar e ouviram os sons do wub subindo a escada.
- Queria saber qual será o resultado dessa conversa - disse o cozinheiro. - Bom, estarei na cozinha. Quero que me informem assim que souberem de algo.
- Certamente, - disse Jones - certamente.

O wub se deixou cair em um canto do escritório com um suspiro.
- Peço-lhe que me perdoe - ele começou -, todas as formas de descansar me agradam. Quando se é grande como eu...
O capitão fez um gesto de impaciência, sentou-se atrás da escrivaninha e cruzou as mãos.
- Tudo bem, - ele disse - vamos começar do princípio. Você é um wub, certo?
- Assim parece - disse o wub encolhendo os ombros -, pelo menos é como os nativos nos chamam. Nós nos chamamos de outro jeito.
- E você fala a nossa língua? Já teve contato com terráqueos antes?
- Não.
- Então, como é possível?
- Falar na sua língua? Estou falando na sua língua, é? Não tenho consciência de estar falando nenhuma língua em particular, apenas examinei a mente de vocês...
- Como é? Examinou nossas mentes?
- Estudei os conteúdos, especialmente o depósito semântico, como eu o chamo...
- Entendo - disse o capitão. - Telepatia. É claro.
- Somos uma raça muito antiga, - disse o wub - muito antiga e muito pesada. É difícil para nós ficar andando por aí. Você é capaz de compreender o quanto seres tão lentos e pesados estão a mercê de formas de vida mais ágeis. Não nos servia depender de defesas físicas. Como poderíamos sobreviver? Pesados demais para correr, flácidos demais para lutar, bondosos demais para caçar por esporte...
- E vivem de quê?
- Plantas. Vegetais. Podemos comer quase tudo. Somos muito religiosos. Religiosos, tolerantes e ecléticos. Vivemos e deixamos viver. Foi assim que sobrevivemos.
O wub encarou o capitão antes de prosseguir:
- É por isso que me oponho tão enfaticamente a esse negócio de ser cozido. Posso ver a imagem em sua mente: a maior parte de mim congelada no depósito de suprimentos, alguma coisa sendo fervida, um pedacinho para o seu mascote...
- Então você lê mentes? - o capitão perguntou. - Muito interessante. Mais alguma coisa? Quer dizer, você pode fazer mais alguma coisa desse tipo?
- Nada demais - disse o wub distraidamente, olhando a sala em volta. - Um belo escritório você tem aqui, capitão, muito limpo. Respeito formas de vida que são asseadas. Alguns pássaros marcianos são bastante asseados. Eles jogam coisas fora e varrem seus ninhos...
- Sim, sim - o capitão assentiu. - Mas voltando ao nosso problema...
- Claro. O senhor falou em me cozinhar. Nosso sabor, já me disseram, é bom. A carne é um pouco gordurosa, mas tenra. Porém, se quisermos a estabelecer uma relação duradoura entre o seu povo e o meu, vocês precisam abandonar atitudes tão bárbaras? Comer-me? Seria melhor discutirmos outras questões, filosofia, arte...
O capitão se levantou.
- Filosofia? Talvez você se interesse em saber que, no mês que vem, dificilmente teremos o que comer nesta nave. Infelizmente, algumas provisões se deterioraram...
- Entendo - o wub concordou -, mas não estaria mais de acordo com seus princípios democráticos que todos tirássemos a sorte no palitinho, ou algo do tipo? Depois de tudo, democracia serve para proteger as minorias de certos abusos. Agora, se cada um tiver direito a votar...
O capitão encaminhou-se para a porta.
-Besteira! - ele disse e abriu a porta. 
E, em seguida, abriu a boca, e... ficou ali, congelado, com a boca escancarada, os olhos abertos, os dedos ainda segurando a maçaneta.
O wub olhou para ele. Depois, arrastou-se para fora da sala passando diante do capitão. Seguiu pelo corredor, profundamente pensativo.

A sala de reunião estava em silêncio.
- Veja bem, - disse o wub - nós temos mitos em comum. Suas mentes contém muitos símbolos míticos que nos são familiares: Ishtar, Odisseu...
Peterson permaneceu em silêncio, olhando para o chão. Mudou de posição na cadeira.
- Continue, - ele disse - continue, por favor.
- Descobri que Odisseu, por exemplo, é uma figura comum à mitologia de quase todas as raças autoconscientes. Conforme eu o interpreto, Odisseu é um indivíduo consciente de sua individualidade. Essa é a ideia por trás de toda separação - separação da família e da terra natal. É o processo de tornar-se indivíduo.
- Mas Odisseu volta para casa. - Peterson olhou para fora pela janela, para as estrelas, para a infinidade de estrelas ardendo intensamente no universo vazio. - No fim, Odisseu volta para casa.
- Sim, como o fazem todas as criaturas. O momento de separação é um período temporário, uma breve jornada da alma. Tem um começo, tem um fim. O viajante aventureiro retorna para sua terra e sua raça...
A porta se abriu. O wub se interrompeu, virou sua enorme cabeça.
O capitão Franco entrara na sala seguido de seus homens. O grupo vacilou.
- Você está bem? - perguntou French para Peterson.
- Eu? - Peterson perguntou, surpreso. - Por que eu?
- Venha até aqui, Peterson - ordenou o capitão empunhando uma pistola. - Levante-se e aproxime-se.
Houve silêncio.
- Vá - disse o wub. - Não há problema.
Peterson se levantou e perguntou:
- Por quê?
- É uma ordem.
Peterson caminhou até a porta. French segurou-o pelo braço.
- Que está havendo? - Peterson se soltou. - Qual é o problema de vocês?
Franco andou até o wub. Do canto da sala, onde estava deitado contra a parede, o wub olhou para cima.
- Interessante, - disse o wub - que o senhor continue obcecado com a ideia de me comer. Queria saber o porquê.
- Levante-se - Franco ordenou.
- Se é o que quer. 
Grunhindo, o wub se levantou. 
- Seja paciente. É difícil para mim.
Ficou de pé, ofegante, com a língua balançando boba.
- Atira nele agora - French gritou.
- Pelo amor de Deus! - exclamou Peterson.
Jones virou-se para Peterson com os olhos embçados de medo.
- Você não viu o capitão feito uma estátua, parado lá com a boca aberta. Se não o tivéssemos encontrado, ainda estaria lá.
- O capitão? - Peterson olhou em volta. - Mas não há nada de errado com ele.
Olharam para o wub parado no meio da sala, o peito enorme ofegando.
- Vamos - Franco falou. - Saiam da frente!
Os homens se amontoaram na porta.
- Estão com medo, não estão? - disse o wub. - Fiz alguma coisa contra vocês? Tudo o que fiz foi tentar me proteger. Não gosto da ideia de machucar. Esperavam que eu tivesse alguma pressa em morrer? Sou um ser tão sensível quanto vocês. Estava curioso para conhecer sua nave, para aprender sobre vocês. Sugeri aos nativos...
O capitão sacudiu a arma.
- Viram! - Franco falou. - Eu sabia.
Ofegante, o wub tentou se acalmar. Esticou as patas e enrolou o rabo em volta delas.
- Está muito quente - o wub disse. - Parece que estamos bem perto das turbinas. Energia atômica. Vocês fizeram coisas tecnologicamente maravilhosas. Entretanto, aparentemente, nem mesmo seus melhores cientistas são capazes de resolver questões morais e éticas.
Franco virou-se para os tripulantes apinhados atrás dele, todos de olhos esbugalhados, todos mergulhados em terror silencioso.
- Eu pego ele. Podem assistir se quiserem.
French concordou:
- Atire na cabeça, o cérebro não deve ser bom de comer. Não atire no peito. Se as costelas se partirem, teremos dificuldade para desossar.
- Escutem - gritou Peterson, umedecendo os lábios. - Que foi que ele fez? De que forma nos ameaça? Estou perguntando a vocês. Além do mais, ele me pertence. Vocês não tem o direito de atirar nele. Ele não é de vocês.
Franco levantou a pistola e mirou no wub.
- Estou saindo - disse Jones, com a cara lívida e abatida. - Não quero ver!
- Eu também estou saindo - French falou. 
Os homens se afastaram como desnorteados, murmurando. Peterson permaneceu na porta.
- Estava me falando sobre mitos. É incapaz de machucar alguém - Peterson disse desapontado, antes de seguir seus colegas.
Franco se aproximou ainda mais do wub. O wub levantou os olhos lentamente. Engoliu em seco.
- Isso é uma grande tolice. Lamento que queira fazer isso. Há uma parábola dita por seu Salvador...
Interrompeu-se olhando para a arma.
- Você é capaz de me olhar nos olhos e fazer isso? Você é capaz de fazer isso?
O capitão olhou nos olhos do wub.
- Eu posso olhar em seus olhos - ele disse. - Lá na fazenda, nós temos porcos, porcos sujos como você. Eu posso fazer isso.
Olhando nos olhos brilhantes e úmidos do wub, o capitão apertou o gatilho.

O sabor era excelente.
Todos ao redor da mesa estavam tristes, alguns deles nem tinham comido. O único que aparentava verdadeira satisfação era o capitão Franco.
- Mais? - ele perguntou olhando ao redor. Querem mais? E mais vinho, talvez.
- Para mim, não - French falou. - Acho que vou para a sala de navegação.
- Eu também - Jones emendou. Levantou-se e empurrou sua cadeira para trás. - Vejo vocês mais tarde.
O capitão observou-os sair. Alguns dos outros foram se desculpando e saindo também.
- Qual você acha que é o problema? - o capitão perguntou para Peterson, que, de cabeça baixa, olhava para o prato à sua frente, para as batatas, para as ervilhas verdes, para a grossa fatia de carne, quente e suculenta. Peterson abriu a boca, mas não saiu som nenhum.
O capitão pousou a mão no ombro de Peterson.
- Agora, isso não passa de matéria orgânica. A essência vital não está mais aí - ele disse, despejando uma colherada de molho sobre uma fatia de pão. - Eu, da minha parte, adoro comer. É um dos grandes prazeres de que uma criatura vivente pode desfrutar. Comer e repousar - e pensar, refletir e conversar sobre coisas.
Peterson concordou com um gesto. Outros dois tripulantes se levantaram e saíram. O capitão bebeu um gole de vinho e suspirou.
- Bom, tenho que admitir que esta foi uma refeição muito agradável - ele disse. - O que o wub falou sobre o sabor dele era pura verdade. Muito bom. Mas já estive privado de gozar desse prazer em tempos passados.
Ele esfregava os lábios com o guardanapo e se reclinava na cadeira. Peterson olhava com desânimo para a mesa.
O capitão curvou-se para seu subalterno olhando-o com vivacidade.
- Vamos, vamos! - disse sorrindo. - Anime-se! Vamos conversar sobre alguma coisa! Como eu dizia antes de ser interrompido, o papel de Odisseu nos mitos...
Peterson saltou da cadeira com os olhos arregalados.
- Continuando, - disse o capitão - Odisseu, conforme eu o interpreto...